O Caminho das Nuvens
















Direção: Vicente Amorim
Roteiro: David França Mendes
Elenco: Cláudia Abreu (Rose), Carol Castro (Sereia), Wagner Moura (Mourão), Claudio Jaborandy (Gideão), Ravi Ramos Lacerda (Antônio)

Dirigido por Vicente Amorim. Com: Wagner Moura, Cláudia Abreu, Ravi Ramos Lacerda, Manoel Sebastião Alves Filho, Felipe Newton Silva Rodrigues, Cícera Cristina Almino de Lima, Cícero Wallyson Ferreira, Cícero Wesley Ferreira, Cláudio Jaborandy, Sidney Magal, Franciolli Luciano, Carol Castro, Caco Monteiro, Laís Corrêa, Fábio Lago.

É fácil encontrar algumas semelhanças entre O Caminho das Nuvens, estréia na direção de Vicente Amorim, e Deus É Brasileiro, comandado pelo veterano Carlos Diegues: ambos são road movies (filmes de estrada), se passam no nordeste do país (em sua maior parte) e trazem o baiano Wagner Moura num dos papéis principais. No entanto, as coincidências param por aí: enquanto o filme de Diegues funcionava mais como cartão postal de uma região repleta de belezas naturais, o trabalho de Amorim retrata uma realidade árida, pobre e triste – e os espectadores estrangeiros, que talvez não conheçam as brutais contradições brasileiras, possivelmente não conseguirão perceber que ambos se passam no mesmo país. Além disso, Deus É Brasileiro abordava a miséria de forma periférica (nem era seu dever fazer outra coisa, já que esta não era sua proposta), ao passo que O Caminho das Nuvens traz personagens que, quando sentem fome, procuram dormir para despistá-la. Finalmente, as performances de Moura, sempre fantásticas, em nada se parecem: se Taoca era um trapaceiro boa-vida e jovial, o retirante Romão é um homem amargurado e seco.
Inspirado em uma história real, O Caminho das Nuvens acompanha a jornada de uma família que decide abandonar o sertão nordestino em busca de melhores oportunidades em uma grande cidade: inicialmente, Juazeiro, e, mais tarde, o Rio de Janeiro. Sem dinheiro para comprar passagens de ônibus e determinado a não deixar a família para trás, Romão toma a nada sensata decisão de enfrentar a longa estrada pedalando – e, assim, ao lado da esposa e dos cinco filhos (um deles, um bebê), partem em cima de quatro bicicletas. O objetivo do sujeito é conseguir um emprego que lhe renda um salário de `mil real` – o mínimo que ele julga necessário para cuidar de sua família.
Retratando com sensibilidade a desilusão de Romão, Wagner Moura comprova, mais uma vez, ser (ao lado de Lázaro Ramos) uma das grandes revelações de nosso Cinema na última década – basta constatar que, somente em 2003, ele criou personagens completamente diferentes em filmes como O Homem do Ano, As Três Marias e Carandiru (além do já citado Deus É Brasileiro). Aqui, o ator compõe um indivíduo extremamente complexo: ao mesmo tempo em que demonstra seu grande amor pela família ao não abandoná-la e por querer mantê-la com um salário digno, Romão se menospreza por estar desempregado – e o que é pior: menospreza também sua família por `aceitá-lo` apesar de seu fracasso. Além disso, apesar de arrastar a esposa e os filhos em seu sonho e em seu orgulho, e de se criticar por não poder sustentá-los, ele observa passivamente enquanto estes se esforçam para ganhar algum dinheiro, seja cantando em bares ou lavando carros.
Constantemente mergulhado em sua autocomiseração e em suas fantasias, Romão revela-se um sujeito apático: não há dúvidas de que suaria a camisa se conseguisse trabalho. O problema é que, antes de tudo, o salário teria que satisfazer seus objetivos – mas onde um homem analfabeto e humilde poderia conseguir uma remuneração de mil reais? O curioso é que, ao decidir mudar-se para o Rio, Romão mantém o sonho dos `mil real`, ignorando o fato de que o custo de vida ali é bem maior do que em Juazeiro e que, portanto, sua meta deveria ser `reajustada`. Desta forma, o belo roteiro David França Mendes deixa claro, de forma sutil, que, para o pobre homem, aquele é um valor utópico, uma fantasia que lhe dá conforto e esperança (assim como sua devoção pelo `Padim Ciço`). Para Romão, mil ou cem mil reais seriam, basicamente, a mesma coisa.
Enquanto isso, Cláudia Abreu, como Rose (a esposa do sujeito), encanta-se com a decisão do marido em não abandonar a família, mas, ao mesmo tempo, é obrigada a encarar a realidade enquanto seu parceiro sonha: quando as crianças choram de fome, por exemplo, é ela quem se tortura para conseguir um meio de alimentá-las – nem que isso signifique submeter-se à humilhação de mendigar. Cansada e reprovando algumas das atitudes mais inconseqüentes do marido (algo que Abreu ilustra apenas com o olhar, demonstrando seu talento), Rose pouco pode fazer, já que, seguindo seu `papel` de mulher, cabe-lhe apenas obedecer a Romão – o que inclui entregar-lhe todo o dinheiro que consegue com suas cantorias (o correto sotaque nordestino de Cláudia Abreu ao cantar Como É Grande o Meu Amor, de Roberto Carlos, é uma gracinha – e sua voz é surpreendentemente boa).
Também merece destaque o talentoso Ravi Ramos Lacerda (Abril Despedaçado) como Antônio, o primogênito de Romão – e com quem o garoto mantém um relacionamento conturbado, já que, sendo mais maduro, é capaz de questionar os atos do pai (em certo momento, Romão afirma que daria o que tivesse caso alguém mais humilde lhe pedisse, mesmo que isso prejudicasse os próprios filhos, e completa: `Quem dá aos pobres, empresta a Deus`. Neste instante, Antônio rebate: `E Deus, paga quando?`). Fechando o elenco principal, vem Sidney Magal, numa curta, mas eficaz participação como um trapaceiro que oferece um emprego curioso ao protagonista.
Conferindo ritmo e fluidez à narrativa, Vicente Amorim evita que o filme se torne episódico (algo comum em road movies) e retrata a trajetória dos personagens com grande grau de realismo: o espectador percebe claramente os sacrifícios enfrentados pelos itinerantes em sua jornada sob o forte sol. Além disso, o promissor cineasta jamais permite que as figuras encontradas ao longo do caminho se tornem mais interessantes do que os protagonistas – outro erro típico do gênero. Para finalizar, André Abujamra atinge um novo pico em sua carreira já repleta de trabalhos bem-sucedidos: ao lado de As Três Marias, esta é, para mim, a melhor trilha que o versátil músico já compôs.
Porém, se o alcance dramático de O Caminho das Nuvens é inquestionável, o mesmo não pode ser dito de seu desfecho, que pode decepcionar alguns espectadores. Seguindo a lógica da vida real, que jamais encontra um `The End` que amarre todas as suas pontas (a não ser, obviamente, em caso de morte), o filme não procura forçar uma conclusão que encaixe todas as peças e solucione todos os questionamentos dos personagens – e, assim, é perfeitamente possível que a narrativa soe incompleta. No entanto, devo ser perfeitamente honesto e esclarecer que este pode ser um erro meu, e não do filme: talvez, ao assisti-lo pela segunda vez (o que sem dúvida farei), o final funcione melhor, já que terei deixado de lado as expectativas iniciais de um desfecho `cinematográfico`.
Aliás, pensando melhor, a sensação de `querer saber mais` que O Caminho das Nuvens deixa no espectador pode ser considerada como mais um elogio à sua competência: afinal, não são todos os filmes que conseguem despertar tanto interesse por seus personagens – algo que esta produção indubitavelmente faz.




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